Após a reunificação alemã, ocorrida em 1990, Berlim desabrochou para o mundo. Entre o passado e o futuro, e apesar de todas as intervenções urbanísticas ocorridas desde os anos 1990, ao caminhar pela cidade ainda se percebe a diferença entre o lado oriental e o ocidental. Berlim é uma cidade multifacetada, com sua história escrita e reescrita num pergaminho reaproveitado, como um palimpsesto, aonde vamos descobrindo parte do antigo texto. Esse, apesar de não ser a história que se quer mostrar, acaba por tomar o lugar protagonista na nossa leitura.
Isso é percebido a todo o momento, entre as distâncias percorridas, entre os vazios urbanos, entre os resquícios dos seus limites e na sua arquitetura. Algumas, especialmente, nasceram para isso. Para não deixar que o mundo esqueça a sua história, e no caso da história germano-judaica sabemos que não são histórias de prazer.
Destaco especial atenção ao que acabo de escrever: uma arquitetura que foi concebida para contar uma história, para ser parte dessa história, para fazer com que os seus usuários vivenciem sensações que remetem às angústias daquele momento histórico. Nesse caso, a arquitetura não é suporte, não é abrigo, é uma máquina do tempo, como no filme “O Túnel do Tempo”.
Para mim, essa é a definição do Museu Judaico de Berlim, concebido pelo arquiteto polonês de origem judía Daniel Libeskind: uma máquina do tempo. Ao visitá-lo me lembrei, imediatamente, daquela célebre frase de Lúcio Costa: “Arquitetura é coisa para ser vivida”. Para falar sobre esse museu, é necessário vivenciá-lo, pois as sensações que sentimos ao percorrê-lo vão além do que se pode sentir por meio de desenhos e fotografias.
O museu chama a atenção desde o seu exterior. Um volume metálico em zig-zag interceptado por cortes estreitos e profundos, como que feitos por lâminas afiadas, tão afiadas que não provocam a dor imediata, mas corroem a alma e a honra.
Um volume fechado, sem portas... A entrada se dá pelo Museu Nacional de Berlim, construído entre 1733 e 1735. Logo somos encaminhados a um longo túnel de concreto que leva ao subsolo, onde se inicia o percurso das exposições. O clima é tenso e denso. Libeskind conseguiu me fazer sentir sensações incômodas, mas surpreendentes. Trabalhando com todos os planos da edificação, piso, parede e teto, e com a luz, ou a sua ausência, senti uma gama de sensações entre tonturas, enjôos, claustrofobia, paz, frio, calor, cansaço e alívio.
A organização espacial do museu é composta por três eixos: o holocausto, o exílio e a continuidade, e as sensações são distribuídas e pertinentes a cada um deles. Os corredores que nos levam ao holocausto são longos e estreitos, com seu piso inclinado e desconfortável, que somadas às paredes construídas em ângulos diversos provocam a dificuldade de caminhar e a desorientação.
Nesse momento nos perguntamos: para onde vamos, o que nos espera? Ao longo desse percurso, rasgos estreitos de luz conferem o clima de suspense que é preenchido pela exposição delicada de histórias de famílias judias, suas fotos, textos e objetos pessoais. Ao final do eixo do holocausto uma pesada porta metálica nos conduz à torre do holocausto, uma sala de concreto, fria, de paredes enormes em relação à proporção de sua base, e escura, pois a única iluminação se dá por um feixe de luz a uns vinte metros de altura. Lá nos sentimos mínimos e ínfimos, existe um eco latente no espaço que se produz apenas pelo silêncio, pois não somos capazes de pronunciar nenhuma palavra, o silêncio diz tudo.
Outro corredor nos encaminha ao exílio. Inicialmente sentimos uma sensação de alívio, pois uma porta pesada nos conduz ao exterior, um jardim formado por 49 pilares quadrados, dispostos numa malha ortogonal, onde podemos percorrê-lo como um labirinto. O jardim, na verdade é suspenso, as plantas foram inseridas na parte superior dos pilares, como vasos gigantes. No entanto, essa sensação de alívio é quebrada ao caminharmos pelos pilares. O piso não é plano, e ao passarmos pelos pilares sentimos uma desorientação completa. Enfim, o exílio poderia ser o fim, ou o recomeço. Na sequência, e após retornar ao interior, o eixo da continuidade é apresentado por uma enorme escadaria estreita, atravessada por vigas suspensas de concreto, que rasgam o vazio em diversas direções na medida em que a escalamos. A essa altura já estamos exaustos, mas ainda teremos que sentir a dor. Cada patamar da escada nos conduz a uma sala e a mais impressionante de todas é composta por inúmeras placas de ferro soltas ao chão, enferrujadas, representando um rosto, e para atravessarmos temos que pisá-los. O incômodo do desnível se traduz no desconforto da dor de cada passo.
Ao final, um pouco de alento nos acalma, uma sala onde uma grande árvore ao centro, nos permite desejar bons sentimentos a tudo e a todos. Chamo a atenção para o fato de que todas essas sensações são provocadas pela atmosfera que a arquitetura conseguiu criar, em nenhuma das exposições nos deparamos com imagens explícitas de horror. Nesse projeto Libeskind conseguiu traduzir o sentimento, ele é único. Pena que o próprio criador o transformou num estilo.