Arquitetura e responsabilidade social

Amélia Panet

VISÃO PANORÂMICA - Amélia Panet

O anuncio do arquiteto japonês Shigeru Ban como o laureado 2014 do Prêmio Pritzker de Arquitetura, o maior premio mundial de arquitetura, reforçou a ética e a responsabilidade social da arquitetura como bandeiras importantes nesse novo século. Além de responder com criatividade as demandas de clientes privados, Ban foi reconhecido pela sua competência no campo da arquitetura social, de emergência e temporária no atendimento às grandes catástrofes ambientais. De acordo com o Júri do Pritzker, 2014: "Shigeru Ban é um arquiteto cujo trabalho incansável inspira otimismo. Onde outros podem ver desafios insuperáveis, Ban vê um convite à ação. Onde outros podem tomar um caminho seguro, ele vê a oportunidade de inovar. Além disso, ele é um professor comprometido que não é apenas um modelo para a geração mais jovem, mas também uma fonte de inspiração."

Nesse sentido, Pérez-Gómez (1994) em “Architecture, éthique et technologie” afirma que, se o arquiteto contemporâneo pretende representar um papel nesse mundo complexo, consciente das imposições ambientais e das diferenças culturais, um mundo onde a tecnologia continuará avançando na escala do planeta, esse profissional deve refletir sobre as estratégias próprias para que possa revelar a capacidade que a disciplina ‘arquitetura’ tem para concretizar uma intencionalidade ética. Nesse sentido, a correta estratégia de sua arquitetura junto às catástrofes ambientais, fez com que Shigeru Ban valorizasse o papel do arquiteto e da arquitetura em contextos de calamidade pública, como por exemplo, na ocasião do terremoto de Sichuan em 2008, do terremoto no Haiti, em 2010 e, do terremoto no leste do Japão em 2011. Projetando abrigos temporários de alta qualidade, escolas e igrejas, a arquitetura de Ban chega na hora necessária dando abrigo àqueles em sofrimento.

Estimulando essa prática, Pérez-Gómez (1994) instiga os arquitetos a encerrarem suas lástimas existenciais e celebrar os ‘trunfos’ da ambiguidade inerente à arquitetura concebida como um universo poético, permeada por discursos endereçados diretamente à concepção perceptiva e imaginativa da humanidade, como se isso fosse o limite. Para o autor, os arquitetos podem ultrapassar esse relativismo puramente formal, estilístico e o profissionalismo pragmático, tirando proveito dos elementos positivos de cada momento para redefinir o seu papel na sociedade, hoje representada por interesses culturais mais vastos, pela universalização tecnológica e espacial e pelos desequilíbrios ambientais.

Nesse caminho, assim como a obra de Shigeru Ban, destacamos o trabalho social do arquiteto Diébédo Francis Kéré nascido em 1965 na aldeia africana de Gando. Pouco conhecido entre os brasileiros, Kéré estudou arquitetura na Universidade Técnica de Berlim. Hoje, ainda em Berlim, coordena seu escritório ‘Kéré Architecture’ com obras em diversos países, mas especialmente, no continente africano, de onde destacamos algumas de suas obras singulares como: a Escola Primária e Biblioteca de Gando, em Burkina Faso; o Parque Nacional do Mali, em Bamako, Mali;e, o Centro de Saúde e de Promoção Social de Laongo, Burkina Faso.

Com um traço elegante, a obra de Kéré parece ser uma resposta às preocupações de Pérez-Gómez(1994). O arquiteto não abre mão da tecnologia do mundo industrializado, mas realiza sua adaptação às possibilidades locais, com o uso de materiais tradicionais e mão de obra acessível. Sua grande preocupação percebe-se estar no conforto climático que sua arquitetura de baixo custo pode proporcionar. Grandes cobertas e ambientes vazados onde o olhar não se interrompe entre a natureza livre e o abrigo acolhedor. Além de exercer a prática projetual, Kéré exerce o difícil e prazeroso exercício da docência, lecionando na Universidade Técnica de Berlim, na Universidade de Wisconsin, na Universidade de Harvard e na Academia de Arquitetura de Mendrisio, sempre preocupado com questões relacionadas à concepção de edifícios ecologicamente adequados ao seu ambiente. Tanto Diébédo Francis Kéré quanto Shigeru Ban são arquitetos que exercem seu ofício com responsabilidade social, mantendo sua arquitetura como expressão cultural legítima.

 

 

 

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