Juliana Garrocho

Entrevista com Juliana Garrocho

“Lugares pouco iluminados causam sensações de angústia e tristeza, enquanto que ambientes coloridos e bem iluminados provocam sensações de alegria e prazer. A luz natural (usada de forma moderada) é considerada como um importante fator para promover não só a boa saúde como a sensação de bem-estar e conforto ao ser humano. A luz natural oferece enormes vantagens, e pode ser utilizada como estratégia para obter maior qualidade ambiental e eficiência energética em edifícios”. É o que pensa a arquiteta e urbanista Juliana Garrocho, de Brasília, que é autora do trabalho Luz Natural e Projeto de Arquitetura: Estratégias para Iluminação Zenital em Centros de Compras. Nesta entrevista à ARTESTUDIO, Juliana explica as vantagens e desvantagens da iluminação natural. Ela diz ainda que o planejamento para usar a luz natural em um projeto tem que o envolvimento de vários especialistas.

 

AE – O que é a iluminação natural nos ambientes?

Juliana Garrocho – A luz natural é uma das fontes de energia mais importantes para o homem desenvolver suas atividades, pois é ela que proporciona a visão nítida do mundo. Além disso, todo ser vivo depende da exposição à luz natural para ativar o ciclo de funções fisiológicas. No entanto, para se projetar com a luz natural garantindo uma iluminação eficiente na realização de qualquer tarefa, proporcionando um ambiente visual agradável, torna-se necessário conhecer suas vantagens e desvantagens. Dentre os aspectos positivos da luz natural pode-se dizer que a qualidade da iluminação obtida é melhor, pois a visão humana desenvolveu-se com a luz natural e a constante mudança da quantidade de luz natural no tempo e espaço é favorável, pois proporciona efeitos estimulantes no ambiente. Todavia, é necessário também, conhecer seus inconvenientes, como direção e altíssima intensidade, pois a maior desvantagem da luz natural é sua imprevisibilidade.

 

AE – Porque ela está tão em voga? É apenas por causa da questão de economia de energia?

A luz natural sempre teve um papel importante na arquitetura, do ponto de vista estético e simbólico, e em relação ao conforto e a iluminação funcional. Pois, a iluminação natural pode proporcionar efeitos singulares em um determinado espaço, dando-lhe identidade própria, criando aspectos cenográficos e características relevantes marcantes. A partir do surgimento do estilo internacional, desenvolveu-se um modo de projetar cada vez mais desvinculado das especificidades climáticas do sítio e das necessidades de conforto do homem. O surgimento das “cortinas de vidro” criou um verdadeiro ícone de edifícios de escritório. O consequente “edifício estufa” foi assim exportado como um símbolo de poder, sem sofrer readaptações às características culturais e climáticas do local de destino. Essa situação tornou-se insustentável com a crise energética da década de 1970, quando a partir daí, nasceram preocupações que norteiam pesquisadores até hoje.

 

AE – O que esse quadro mudou com a crise?

Pode-se dizer que nesse período aumentaram as atenções para os benefícios da iluminação natural. Mas somente em meados da década de 1970, com a crise energética mundial, a luz solar direta começou a ser levada em consideração como uma técnica potencial para a iluminação e economia de energia. Uma das características da arquitetura atual é a utilização de grandes fachadas envidraçadas (ou translúcidas) independente das condições climáticas locais. Esse uso indiscriminado muitas vezes causa um sobreaquecimento das edificações devido ao ganho excessivo de calor (carga térmica) decorrente da incidência da radiação solar.

 

AE – O que pode acontecer a partir daí?

Desse sobreaquecimento, duas consequências são imediatas: o desconforto dos usuários e a intensificação no consumo de energia elétrica para o condicionamento artificial do ambiente. A identificação de tais problemas gerou a necessidade de desenvolvimento de novas tecnologias de produção de componentes translúcidos (vidros, policarbonatos, sistemas avançados, etc) que, basicamente, buscam o componente perfeito: alta transmissão luminosa; baixa transmissão de calor (infravermelho); e baixa transmissão de ultravioleta.

 

AE – O que vem a ser eficiência energética?

A preocupação com o consumo de energia elétrica e com o meio ambiente natural é, atualmente, uma questão relevante. Não é raro observar diversos países com suas legislações reformuladas, com uma preocupação notória com as questões energético-ambientais, incluindo a busca pelo conforto nos ambientes construídos. Estudado em diversos níveis, o conforto ambiental é considerado como um dos principais objetivos da arquitetura: busca parâmetros adequados para o projeto e avaliação do desempenho do espaço construído, visando ao máximo o bem estar do usuário.

 

AE – Como isso mudou com a crise energética?

Um novo paradigma surgiu na década de 1970, obrigando a uma reavaliação, em todos os níveis, das estratégias energéticas de produção e consumo de energias utilizadas até então. O uso indiscriminado e predatório das fontes convencionais e a disseminação das instalações nucleares colocaram de forma enfática o problema do impacto ambiental e da limitação das fontes energéticas exploradas inadequadamente há tempos.

 

AE – E hoje?

O desafio no cenário atual é mudar e substituir o comportamento convencional dos consumidores, característico do padrão produtivo e de consumo massivo, visando racionalizar o uso da energia e apontar medidas de utilização mais responsável, considerando não só o presente momento, mas seu impacto global no futuro. O uso contínuo de energia é possivelmente o maior impacto ambiental característico de um edifício, e por isso o projeto energeticamente eficiente deve ser a prioridade máxima. Isto está relacionado com diversos aspectos, dentre eles, a utilização de fontes renováveis de energia, a minimização das cargas de resfriamento e a otimização da luz natural.

 

AE – Como aplicar iluminação natural e eficiência energética em apartamentos e casas?

Do ponto de vista ambiental, a edificação deve proporcionar ao usuário, acima de tudo, uma condição mínima de habitação seguida de uma sensação contínua de bem estar. Vale ressaltar que, com relação aos aspectos de iluminação (luz e calor), no projeto arquitetônico eles devem ser considerados conjuntamente. Esta visão integrada torna possível também, o bom desempenho energético da arquitetura que, sendo adequada às necessidades do usuário, resulta, sobretudo, em ambientes mais confortáveis e eficientes energeticamente. Nesse sentido, é importante frisar que, para se obter a eficiência energética em uma edificação, a iluminação natural deve ser projetada em conjunto com o sistema de iluminação artificial. Pois, através do uso otimizado da luz natural, consegue-se a redução do uso da luz artificial. De forma que, quando a luz natural é suficiente em um determinado ambiente, a luz artificial pode ser desligada ou diminuída.

 

AE – No Brasil, é preciso ter bastante esse cuidado, não?

No contexto brasileiro, principalmente, a utilização da iluminação natural reflete-se diretamente na energia gasta em ar condicionado e iluminação artificial. Em grande parte das cidades brasileiras, a luminosidade do céu é intensa, o que permite reduzir bastante o uso da luz artificial na maioria dos edifícios. Podem-se reduzir também os custos com ar condicionado, pois a luz natural produz menos calor por unidade de iluminação do que a maioria das luzes artificiais, reduzindo, portanto, também a carga do ar condicionado.

 

AE – O Nordeste seria uma região propícia para projetos com a iluminação natural?

As regiões tropicais, por sua localização em uma faixa próxima do equador, caracterizam-se pela ausência de variações anuais. Nesse caso, adequar o projeto arquitetônico às condições climáticas do lugar torna-se uma tarefa mais simples. A disponibilidade da luz natural na região Nordeste é grande, e seus valores de iluminâncias são muito altos. Por um lado este aspecto é muito positivo, pois se pode empregar e utilizar a iluminação natural como recurso de projeto em grande parte do ano, diminuindo assim, o uso da energia elétrica com o sistema de iluminação artificial. Por outro lado, esse excesso de luminosidade traz também ganhos térmicos (superaquecimento) para a edificação.

 

AE – Os projetos são baseados no Regulamento Técnico da Qualidade do Nível de Eficiência Energética de Edifícios Residenciais (RTQ-R)?

Na região Nordeste existe quatro laboratórios – na UFAL, UFRN, UFC e UFBA – que integram convênios com a Eletrobrás e possuem consultores especialistas em etiquetagem de edificações. Diversos edifícios já foram edificados e certificados, o Procel Edica disponibiliza listagem dos edifícios etiquetados em seu site. A maioria desses edifícios está localizada nas regiões Sudeste e Sul do país.

 

AE – A iluminação natural ajuda a dar mais conforto aos projetos?

A iluminação natural não é apenas uma questão de eficiência energética e tecnologia, mas de concepção arquitetônica, e fator importante na percepção e aceitação dos espaços por seus ocupantes. Lugares pouco iluminados causam sensações de angústia e tristeza, enquanto que ambientes coloridos e bem iluminados provocam sensações de alegria e prazer. A luz natural – usada de forma moderada – é considerada como um importante fator para promover não só a boa saúde como a sensação de bem-estar e conforto ao ser humano. É importante salientar que as pessoas que vivem diariamente em ambientes climatizados e iluminados artificialmente sentem, em algum nível, mudanças sazonais no seu humor ou comportamento. Entretanto, a luz natural pode fornecer os estímulos suficientes para evitar estas alterações fisiológicas devido, principalmente, a variação da iluminação no tempo e espaço, que está diretamente relacionada com as sensações de conforto interpretadas pelo usuário da edificação.

 

AE - A iluminação natural pode ser usada em todos os ambientes?

O projeto deve considerar a orientação e disposição dos ambientes e das atividades de longa permanência e de permanência transitória agrupando-os por afinidades. As atividades podem ser agrupadas, orientadas e dispostas horizontalmente e verticalmente por afinidades nas necessidades de luz; a prioridade no atendimento recai nas funções de longa permanência.

 

AE – Em quais ambientes ela fica melhor?

Os espaços a receberem luz natural são aqueles fundamentais para a realização das atividades a que um edifício se propõe. A necessidade de mais luz acontece nos espaços servidos e que são também aqueles classificados como de permanência prolongada. Os espaços servidores são aqueles que servem de meios acessórios às funções principais de uma arquitetura, espaços secundários. Nestes últimos espaços, a permanência é transitória.

 

AE – O que se pode usar para fazer a iluminação natural? Paredes de vidro? Tijolos de vidro? Janelas? O que fica mais adequado para cada ambiente?

A essência de um bom projeto de iluminação natural consiste na colocação de aberturas de tal modo que a luz penetre onde ela é desejada, isto é, sobre o plano de trabalho ou tarefa, e de tal maneira que proporcione uma boa distribuição de luminância em todos os planos do interior. A iluminação interior, tanto em quantidade como em qualidade, é em função, não apenas do tamanho, formato, e colocação das aberturas, mas também das propriedades refletoras das superfícies interiores, representando todos estes elementos uma significativa contribuição para a iluminação total do ambiente.

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