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Sob as bêncãos de São Frei Pedro Gonçalves

A igreja está bem no centro do largo... No alto da colina do Porto do Capim, em frente ao Rio Sanhauá, a Igreja de São Frei Pedro Gonçalves se destaca pela arquitetura de traços ecléticos. Com forte influência neoclássica, os elementos remontam ao Renascimento florentino. Na fachada do templo, os vértices são guarnecidos de almofadas salientes executadas na alvenaria; as pilastras são coroadas por capitéis jônicos. À esquerda, o campanário possui quatro pavimentos que são marcados, horizontalmente, por cornijas. Nos dois últimos, onde se localiza a torre, estão as colunas coríntias, que dão volume à edificação da cidade baixa.
A construção foi iniciada em 5 de junho de 1843 e recebeu o nome de Igreja dos Navegantes. A obra foi financiada pelos navegadores e comerciantes, que se instalavam na Rua Direita (atual Duque de Caxias), centro financeiro da antiga Parahyba. Posteriormente, passou a homenagear São Frei Pedro Gonçalves, espanhol que peregrinou, na Galícia e Andaluzia, durante os séculos XII e XIII. Conhecido como o “Protetor dos Navegantes”, a imagem do religioso acalmava os marujos que, durante a Idade Média e a Idade Moderna, atravessam os mares bravios e desconhecidos, em busca das novas terras.
O bálsamo fortalecia a fé católica. Para não se deixar vencer pelos temores e enfrentar os perigos, os portugueses e espanhóis costumavam pedir a proteção de São Frei Pedro Gonçalves. Os apelos ao santo permitiam que os homens viajassem durante longos meses pelos oceanos e chegassem à África, Ásia, Índia e, posteriormente, à América. A reverência aparece, inclusive, em Os Lusíadas. Ao narrar a saga de Vasco da Gama às terras africanas, assim diz Camões: “Vi claramente visto o lume vivo/ Que a marítima gente tem por santo/ Em temo de tormenta o vento esquivo/ De tempestade escura o triste pranto”.
A edificação da Igreja de São Frei Pedro Gonçalves durou quase trinta anos. Em 8 de dezembro de 1870, uma imagem de Nossa Senhora da Conceição foi benta e colocada no interior do templo. Em pedra e tamanho natural, ela pisa uma serpente, que está sob seus pés. A peça havia sido retirada da proa da galera Frederch Geosard, que afundou na costa do litoral paraibano, provavelmente na Praia do Poço, no século XVII.
Contudo, a conclusão definitiva da Igreja de São Frei Pedro Gonçalves aconteceu somente em 1916, quando uma torre foi erguida pelos frades da Ordem Franciscana, que iniciaram, ainda, a construção de um convento anexo, para servir de local de residência e aulas religiosas. Quando os franciscanos foram embora, a Igreja passou a sofrer o desgaste pela passagem do tempo e o progressivo abandono da área do Varadouro.
O arquiteto e urbanista Cláudio Nogueira foi o primeiro coordenador adjunto da Comissão do Centro Histórico de João Pessoa, órgão que foi responsável pela revitalização do santuário, no final dos anos de 1990. Ele lembra: “Um dos principais problemas residia no quase estado de ruína em que se encontrava a sua coberta. Deste fato, decorria a grande quantidade de infiltrações que apresentava suas alvenarias e o forro da nave, em estuque. Uma das situações preocupantes consistia no comprometimento estrutural que apresentava a cúpula que cobre a capela e altar-mor”.
A igreja continuava atraindo os fiéis para as missas e passou a ser utilizada pelos moradores do Varadouro, especialmente do Porto do Capim, como espaço comunitário para reuniões e outras atividades. As ações permitiram ao templo permanecer na memória afetiva e continuar integrado ao cotidiano do cidadão paraibano.
O ano de 1998 foi decisivo para que a história da igreja de São Frei Pedro Gonçalves fosse restaurada. Em 2 de dezembro de 1998, o Largo de São Frei Pedro Gonçalves – onde se inclui a Igreja, o casario e o Hotel Globo – foi tombado pelo Governo da Paraíba. O Iphaep passou a ser o guardião da área, não permitindo que seja modificada, sem que antes haja uma prévia autorização do seu conselho deliberativo. Ao longo dos tempos, a proteção vem possibilitando que o Largo de São Frei Pedro Gonçalves possa ser reconhecido pelos mais velhos e também pelas gerações mais jovens.

Abandono e restauração
Nesse mesmo ano de 1998, técnicos voltaram ao passado, realizando prospecções arqueológicas e um minucioso trabalho de recuperação dos traços arquitetônicos originais da Igreja de São Frei Pedro Gonçalves. O trabalho durou cinco anos (até 2002) e custou US$ 313.437. As verbas vieram do Ministério da Cultura, Governo da Paraíba e Prodetur. Durante as descobertas arqueológicas, foi encontrado um mapa do capitão-piloto Manuel Francisco Granjeiro, publicado no códice beneditino de 1692, que indica a presença de uma pequena capela edificada na colina do Varadouro.
“Apesar da existência de diversos documentos antigos e de numerosos estudos de historiadores e arquitetos paraibanos sobre a evolução urbana de João Pessoa, quase nenhuma referência aparece, nem há descrições antigas referentes à existência de uma igreja ou capela dedicada a São Frei Pedro Gonçalves, anterior a segunda metade do século XIX”, diz Cláudio Nogueira. “A falta de informações textuais aumenta, assim, a importância dos achados arqueológicos nessa igreja, demonstrativos, sem dúvida, da existência de uma capela mais antiga no lugar onde depois se levantaria a atual igreja dedicada ao santo dos marinheiros”.
Durante o trabalho também chegou a ser levantada a hipótese da existência de uma “cidadela”, que teria sido construída na época colonial. Na época, a possível descoberta foi fartamente publicada na imprensa local (e até nacional), gerando discordâncias entre os pesquisadores paraibanos e até de outros estados acerca de sua veracidade. Testemunha ocular de todo o projeto do largo, Nogueira argumenta: “Em documentos antigos, há referências a existência de primitiva fortificação na região do Porto do Capim, possivelmente de taipa, o que era comum num primeiro estágio de construção de uma fortaleza no período colonial. Há também referências de intenções de construção de novas fortificações para defender o porto da cidade entre os séculos XVII e XVIII, sendo que não há comprovações de terem sido efetivadas”.
Segundo ele, a hipótese necessitaria de novas pesquisas e estudos na região do Largo de São Frei Pedro Gonçalves. E, para por fim à polêmica, o arquiteto destaca o que efetivamente foi comprovado e passou a fazer parte dos anais da história. “Nos alicerces da capela, as escavações arqueológicas evidenciaram e encontrou-se uma moeda de D. Maria e D. João III, de 1778. Achado importantíssimo, que data a existência da capela no século XVIII, construída em cantaria. Essa pode não ter sido a primeira capela. E, somente a título de hipótese, pode-se pensar na existência de uma ermida anterior, precária e singela, fundada pelos primeiros marinheiros ali chegados”. Ele destaca que as escavações evidenciaram: a estrutura de uma capela, construída possivelmente nos séculos XVII a XVIII; as escadarias da primeira igreja, construída entre fins do século XVIII e princípios do XIX e a ampliação da primeira igreja, com as conseqüentes transformações, que configuram a estrutura atual.
O arquiteto detalha as descobertas. “No lado externo da fachada da igreja atual, apareceram os alicerces da capela primitiva, e sobre a parede frontal constatou-se que, depois da demolição, foi construída a escadaria da primeira igreja. Quando se levantou o piso e se construiu outra escadaria sobre a anterior, verificou-se que os degraus da antiga foram também utilizados como lugar de enterramento.
Para Cláudio, restos do reboco de cores diferentes, encontrados no interior da capela, indicam a existência de decoração interna policrômica. “Tanto a capela como a igreja, tiveram assoalho de tijoleira antes da colocação do piso de ladrilho hidráulico, já no século XX. Moedas, louças e faianças do século XIX, coletadas durante as escavações, informam sobre evolução e uso da igreja de São Frei Pedro Gonçalves nessa fase preliminar das escavações”.

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