Houve um futuro antes e depois de Metrópolis (1927). O filme, uma ficção científica que ainda pertencia ao expressionismo alemão (vertente daquele começo de século XX na qual a arte refletia em sua forma as angústias interiores do ser humano), concebeu e apresentou um período tão alegórico quanto realista em determinados aspectos.
O “mundo” do filme é dividido dramaticamente no ambiente de duas classes: a rica, acima do chão, de jardins paradisíacos, grandes avenidas e arranha-céus tão altos que os aviões passam entre eles; e a dos trabalhadores, no subsolo, um lugar de opressão onde eles se esforçam para manter o paraíso acima funcionando.
É claro que a sociedade não é e provavelmente nunca será, ao pé da letra, o que se vê em Metrópolis. Mas em termos alegóricos, ninguém pode deixar de notar as semelhanças. Afinal, as grandes cidades possuem, em maior em menor grau, a divisão que se vê no filme de Fritz Lang: centros desenvolvidos, limpos, altamente tecnológicos, em contraste com periferias paupérrimas, mal cuidadas e sem grande atenção dos governos.
Brasília talvez seja o melhor exemplo: a cidade planejada por Lucio Costa, Niemeyer e Burle Marx tem, em seu entorno, um bolsão de miséria e violência nas cidades-satélite e cidades goianas vizinhas. Mas é nesse entorno onde mora grande parte dos trabalhadores que ajudam a manter a cidade.
Voltando ao filme, Metrópolis é governada por Joh Fredersen, que tem um filho, Freder. Ele desconhece o mundo dos trabalhadores, mas o encontro com Maria, mulher tida como santa pelos do subsolo, vai mudar tudo. Freder toma contato com o que se passa lá embaixo e procurar melhorá-la. Segundo a filosofia do filme, ele é o “coração” que une a “mente” (os aristocratas que conceberam Metrópolis) e a “mão” (os trabalhadores que botaram a mão na massa para erguê-la e mantê-la funcionando).
A verticalização de Metrópolis é um símbolo de poder e tecnologia – exatamente como já estava acontecendo nos Estados Unidos, com a corrida para construir os maiores edifícios do mundo, como o Chrysler e o Empire State. O grande projeto de Fredersen é a Nova Torre de Babel, cuja lenda bíblica dizia que era a maior do mundo.
Para ampliar seu domínio sobre os trabalhadores, Fredersen resolve substituir Maria por um robô criado pelo cientista Rotwang. Mas Rotwang tem seus próprios planos, o que vai levar as classes a um grande conflito.
Os arranha-céus altíssimos que aparecem em Metrópolis são referência ao que estava acontecendo em Chicago e Nova York e era testemunhado pelos viajantes alemães. Mas aquilo se tornou ainda mais uma realidade: as grandes cidades são marcadas, hoje, principalmente por sua verticalização, com prédios ainda mais altos até fora dos Estados Unidos, como na Malásia e nos Emirados Árabes. E mesmo em São Paulo, se não temos aviões circulando entre os prédios, helicópteros já são um meio de transporte comum na cidade (para os ricos, é claro).
Mudo, Metrópolis é uma lenda do cinema. E faz parte dessa lenda a dificuldade que sempre Divulgaçãose teve de assistir ao filme na versão concebida e executada por Lang. Metrópolis foi cortado e reeditado inúmeras vezes ao longo destes quase 85 anos. Já em 1927, uma versão cortada foi exibida nos Estados Unidos com 1h54! Em 1984, o compositor Giorgio Moroder compôs uma trilha pop para o filme, em uma reedição de apenas 1h20. Uma cópia restaurada em 2001, já com cenas perdidas, foi lançada no Brasil pela Continental.
Ainda assim, acreditava-se que um quarto do filme estava perdido. Pois em 2008, foi encontrada uma cópia em um museu de Buenos Aires e outra no Chile com 25 minutos das sequências que estavam perdidas. Esta novíssima versão foi lançada com toda a pompa em 2010, com 2h28 – e recentemente saiu no Brasil nas bancas, na Coleção Folha Cinema Europeu.
Além do mais, Metrópolis é uma visão do futuro que influenciou fortemente outros filmes, como os cenários de Blade Runner, o Caçador de Andróides (1982) e Batman (1989) ou o robô C-3PO, de Guerra nas Estrelas (1977). Lang escreveu o filme com Thea von Harbour, que era simpatizante do Nazismo, e o diretor sempre declarou que não concordava com o final conciliatório proposto no roteiro. Quando o Nazismo ascendeu, Thea ficou na Alemanha. Fritz Lang se mudou para os Estados Unidos, onde continuou sua carreira.
Harmonia entre a imponencia divina e a poesia das construções humanas, em Santiago no Chile
O documentário Arquitetura da destruição mostra como Hitler desenvolveu suas terríveis ideias por razões estéticas
As telhas vêm protegendo o homem das chuvas e dos ventos desde os tempos pré-históricos
Resquício da única edificação produtora de cana-de-açúcar da capital paraibana, o imóvel é hoje a Escola Piollin