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Sociedade

José Rufino

José Rufino tem uma longa história de ligação com a arte. Ele desenvolveu a carreira passando da poesia para a poesia-visual. Não demorou muito para a arte-postal passar para os desenhos, o que aconteceu ainda nos anos 1980. É interessante ver que o universo do declínio das plantações de cana-de-açúcar no Brasil conduziu o trabalho inicial do artista em desenhos e instalações com mobiliário e documentos de família e institucionais.
Filho de ativistas políticos presos pela ditadura do regime militar brasileiro nos anos 1960 – a mãe é a também artista plástica Marlene Almeida –, o artista é também muito conhecido pelos seus impressionantes trabalhos de caráter político. Ultimamente, tem realizado incursões na linguagem cinematográfica e desenvolve cada vez mais um trabalho misto de monotipias/móveis/objetos e instalações.
O diálogo sempre presente entre memória e esquecimento faz do trabalho dele algo ainda mais importante. “O início da minha produção aconteceu enquanto eu morava em Recife e estava muito envolvido com o movimento estudantil e as rebarbas da ditadura militar. O fato de ser filho de ativistas políticos e, ao mesmo tempo, ter passado boa parte da infância no Engenho Vaca-Brava, em Areia, como neto do senhor de engenho, me permitiu uma visão de mundo cheia de dicotomias. Os primeiros passos dos meus trabalhos artísticos serviram então como ferramenta para uma revisão particular e familiar. Eu precisava rever a história da família, estabelecer novos paradigmas e ao mesmo tempo oferecer o produto dessa revisão, dessa subversão histórica. Não encontrei maneira melhor e mais potente de cumprir essa tarefa senão através da arte. Cartas pessoais, documentos e móveis de família ganharam então uma visibilidade alterada, nas paredes de instituições e coleções de arte”, disse.
Jose Rufino explica que o trabalho se divide entre a criação propriamente dita e as demandas mais administrativas. “A criação é um processo de pensamento contínuo, o que não significa que estou diariamente no ateliê, que fica em Bayeux. Muito desse processo ocorre em qualquer lugar, em qualquer momento e se concretiza em outro momento. Tenho um fluxo contínuo de criação, sempre em várias direções e que fica bem mais ativo e eficiente quando estou mais atarefado e sob pressão de prazos”, diz ele. “A parte administrativa é feita pelo meu escritório e consiste numa rotina de atendimento de pedidos de dados sobre obras, fotografias, questões de transporte, orçamentos, enfim, toda a logística de apoio às exposições e pesquisas sobre meu trabalho. Tenho um assistente que é estudante de arquitetura e ajuda muito nos projetos de obras mais complexas e que exigem maquetes virtuais e quantificações de materiais. Além disso, a galeria que me representa, a Millan de São Paulo, cuida de outra parte e de feiras e exposições internacionais”.
Por alguns anos, Rufino teve ateliê no centro histórico, exatamente nos anos em que estava mais cuidado e ficava exatamente na frente do Parahyba Café. Segundo ele, este foi um período maravilhoso. Porém, o lugar foi ficando mais degradado e o espaço de trabalho pequeno e por isso ele resolveu construir um projeto em parceria com o pai, que é engenheiro, no sítio de Bayeux. O prédio foi inspirado na Bauhaus e também em Barragan e Warchavchik. Hoje, é um refúgio do barulho e da correria de João Pessoa.
E em mais de 25 anos de carreira, com quase 200 mostras coletivas e mais de 15 individuais, o artista revela o processo de criação. “Meu processo criativo está muito mais vinculado a certos condicionantes do que a técnicas. Questões como a relação entre memória e esquecimento, tanto nos campos pessoais como institucionais, repressão política, psicanálise e filosofia, por exemplo, têm sido matéria-prima de muitas séries de obras. No entanto, o uso de papeis antigos, móveis e madeiras velhas é muito frequente. Os projetos podem resultar em pequenos desenhos ou grandes esculturas e instalações. Tudo depende de como o assunto pode ser resolvido e potencializado”, afirmou.
Dentre as exposições mais importantes, o artista cita as retrospectivas no Museu Oscar Niemeyer de Curitiba, no Museu de Arte Contemporânea de Niterói e no Museu de Arte Moderna de Recife, além de algumas bienais, como a Bienal de São Paulo. No ano passado fez uma exposição individual no Museu Andy Warhol, em Pittsburgh, Estados Unidos, dividindo salas com obras do próprio Warhol. “Foi um projeto incrível”, disse Rufino, já que ele trabalhou sobre papéis originais de Warhol e reinterpretou algumas de suas obras, além de desenvolver um complexo projeto com pacientes com Alzheimer para a mesma mostra. Algumas imagens podem ser vistas no site do artista (www.joserufino.com).
Além da arte, José Rufino tem outra paixão: as plantas, especialmente as palmeiras. Ele tem uma coleção de mais de 300 espécies de palmeiras em um grande jardim, além de centenas de outras plantas de outras famílias. “Paisagismo, arquitetura, design e antiguidades são minhas maiores manias. Não vivo sem livros e revistas sobre estes assuntos”, diz.
Apesar da ligação cada vez mais forte com o cinema, é na literatura que Rufino tem um grande desafio agora. No próximo ano ele pretende lançar seu primeiro romance, que foi produzido com uma bolsa de criação da Fundação Nacional de Arte (Funarte).
Atualmente, o que o deixa mais feliz é estar envolvido em projetos desafiadores, como o que vai fazer na Casa França-Brasil, do Rio de Janeiro, no próximo ano, e que será a maior obra da carreira dele. Para o futuro, José Rufino deseja continuar acreditando na capacidade da arte de atuar nos campos mais profundos da natureza humana. “Não tenho mais sonhos de carreira artística. Penso apenas em cada trabalho e como ele pode ser mais forte e desencadear outros. Isso é meu maior luxo e é o que me mantém vivo”, conclui.

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