Este ano, Marcélia Cartaxo estreou como diretora de teatro, com a peça Meias Irmãs. Foi uma estréia na carreira de uma atriz já consagrada, que sempre terá consigo o título de ser a primeira atriz brasileira a conquistar um prêmio em um festival internacional de cinema: o de melhor atriz em Berlim por A Hora da Estrela (1985), de Suzana Amaral. Um feito admirável.
No grande circuito de festivais internacionais só outras três brasileiras repetiram a conquista de Marcélia: Fernanda Torres, em 1986, em Cannes, com Eu Sei que Vou Te Amar; Fernanda Montenegro, em 1998, em Berlim, com Central do Brasil; e Sandra Corveloni, em 2008, em Cannes, com Linha de Passe. A história da conquista de Marcélia começa no interior da Paraíba, na cidade de Cajazeiras. Mais precisamente com o grupo de teatro Terra, que revelou também Nanego Lira, Soia Lira, Eliézer Rolim e Luiz Carlos Vasconcelos.
O grupo estava em São Paulo para três apresentações em um evento, com o espetáculo chamava-se Beiço de Estrada, escrito e dirigido por Eliézer Filho (hoje, Rolim). A diretora Suzana Amaral, já em busca da protagonista de sua versão para o livro de Clarice Lispector, estava na plateia.
Suzana assistiu às três apresentações com José Dumont, que já estava escalado no elenco, e já convidou Marcélia para viver Macabéa. O ano era 1982 e Marcélia tinha 18 anos. Foram precisos mais dois para a diretora conseguir o financiamento da Embrafilme. Enquanto isso, as duas foram se correspondendo. Suzana presenteou Marcélia com o livro e a atriz o leu umas 20 vezes, além de fazer outros rituais de aproximação com a personagem: costurou uma camisola feita de saco de açúcar (que está no filme) e observou as “macabéas” em sua cidade.
No filme, Marcélia era a atriz principal para coadjuvantes de luxo como Fernanda Montenegro e Tâmara Taxman. O primeiro prêmio foi no Festival de Brasília, no final de 1985. Em fevereiro, foi a vez de Berlim.
O segundo papel de maior destaque que teve no cinema foi o da prostituta do núcleo familiar do protagonista de Madame Satã (2002), o filme que revelou o talento de Lázaro Ramos. Com ele, ganhou o prêmio de melhor atriz no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, derrotando Roberta Rodrigues (Cidade de Deus), Débora Duboc (Latitude Zero), Júlia Lemmertz e Marieta Severo (As Três Marias). Ela já havia vencido duas vezes o Candango de atriz coadjuvante no Festival de Brasília, por Fronteira das Almas (1987) e 16060 (1996).
Um ano depois, ela estreou na direção, com o curta-metragem Tempo de Ira (co-dirigido com Gisella Mello) – uma nova função, que desembocou em sua estréia como diretora nos palcos, este ano. De uma só vez, Marcélia trilha um novo caminho e volta no tempo ao seu começo com o grupo Terra, na adloescência, em Cajazeiras.